Uma transformação silenciosa

O município de Goianésia é um exemplo das grandes mudanças sociais e econômicas que os serviços de saneamento básico podem trazer a uma comunidade
Anderson Shineider
Alunos de uma das escolas municipais em Goianésia: queda no índice de mortalidade infantil
 
Por Maurício Oliveira, de Goianésia  | 23.12.2008

Revista EXAME - 

O cotidiano de Goianésia, cidade com 55 000 habitantes a 170 quilômetros de Goiânia, é típico do interior do Brasil. Quase tudo se concentra em torno da igreja e da praça, prédios com mais de quatro andares podem ser contados nos dedos das mãos e dois semáforos são suficientes para controlar o trânsito local. O município, no entanto, se destaca por uma mudança silenciosa que vem ocorrendo nos últimos 15 anos, decorrente da ampliação dos serviços de saneamento básico. Nesse período, a taxa de cobertura da rede de esgoto passou de 29% para os atuais 75% da população, com reflexos diretos nas estatísticas relacionadas à saúde. O índice de mortalidade infantil caiu de 28 para 11 casos a cada grupo de 1 000 crianças nascidas vivas (quase um terço da média brasileira) e o percentual de internações hospitalares provocadas por doenças infecciosas e parasitárias despencou de 34% para 12%, o que representou uma redução anual estimada em 600 000 reais nos gastos públicos. A melhoria da infra-estrutura também contribuiu para tornar Goianésia mais atraente para investimentos e valorizou o mercado mobiliário. Desde o início da década de 90, o número de estabelecimentos comerciais dobrou, chegando ao número atual de 800, e a cotação de alguns imóveis na região central do município aumentou 100%.

Desde o final da década de 90, a cidade obteve 15 milhões de reais para obras como a modernização da estação de tratamento de esgoto. Sua capacidade foi triplicada para dar conta da demanda resultante da ampliação da rede coletora, e a construção do aterro sanitário, um dos primeiros a ser instalados no estado de Goiás, em substituição ao antigo lixão a céu aberto. O sistema de coleta de lixo nas ruas também foi modernizado. Três caminhões compactadores passaram a fazer o trabalho que costumava ser feito por nove caminhões-caçamba cobertos por lonas, improviso que freqüentemente resultava em lixo espalhado pela cidade. Hoje, 100% da população tem acesso ao recolhimento, feito diariamente na região central e três vezes por semana nos demais bairros. Inaugurado há quatro anos, o aterro sanitário está utilizando apenas a terceira das 14 trincheiras de capacidade, o que assegura a resolução do problema do lixo na cidade por pelo menos mais 20 anos, condição rara no país.

O Brasil tem registrado avanços na área de saneamento básico, mas num ritmo ainda muito lento, diante das necessidades da população. De acordo com uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas e da ONG Instituto Trata Brasil, entre 2006 e 2007 a taxa de brasileiros que não possuem acesso à coleta de esgoto caiu de 53,23% para 50,56%. Esse é o menor número registrado nos últimos 15 anos, mas salta à vista o fato de que, em pleno século 21, boa parte dos brasileiros ainda não tenha acesso a esse e a outros serviços básicos. Quase 20% da população não conhece o que é água tratada e 20% não tem acesso à coleta de lixo. "Investir em saneamento básico significa salvar vidas", afirma Raul Pinho, presidente executivo do Instituto Trata Brasil. Um estudo encomendado pela ONG à FGV concluiu que viver sob condições inadequadas de saneamento básico aumenta 32% o risco de morte entre crianças de até 6 anos.

Tendo superado os problemas mais cruciais relacionados à falta de saneamento, a prefeitura de Goianésia consegue hoje concentrar investimentos em outras áreas prioritárias, como a educação. As 12 escolas municipais de Ensino Fundamental, que somam 6 200 alunos, funcionam em tempo integral. Quem estuda pela manhã faz algum tipo de atividade à tarde, e vice-versa. Entre as possibilidades à escolha dos estudantes estão reforço escolar, dança, música, natação, futebol, xadrez, literatura, artesanato e inglês. "A gente só consegue aproveitar tudo isso porque está com a saúde em dia", diz o estudante Aurélio Sampaio Povoa, de 15 anos, que virou celebridade local depois de vencer no ano passado a primeira edição do Soletrando, uma gincana de conhecimentos em português promovida pelo programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo.

Rede de benefícios 


Entre tantas lições positivas, o caso de Goianésia confirma também uma velha máxima da política nacional: investir em saneamento dificilmente rende votos, pois as obras ficam "embaixo da terra" e não podem ser vistas e desfrutadas diretamente pela população. O prefeito Otávio Lage de Siqueira Filho, do PSDB, acaba de sentir isso na pele. Depois de cumprir dois mandatos, período em que o município obteve boa parte dos avanços em saneamento básico, ele não conseguiu eleger o sucessor. O vitorioso foi Gilberto Naves, do PMDB. "O que importa mesmo é ter a convicção de que as obras ficam para o futuro da cidade", diz Siqueira Filho.

 
 
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