Revista EXAME -
O álcool brasileiro, à base de cana-de-açúcar, continua sendo o mais competitivo do mundo, mesmo com o aumento dos custos de produção, que elevou o preço do litro do álcool anidro - usado na mistura com a gasolina - de 22 para 45 centavos de dólar nos últimos 12 meses. Apesar dos problemas, é um preço ainda inferior ao do etanol de milho (66 centavos de dólar o litro) e do etanol de beterraba (1,28 dólar o litro), produzidos, respectivamente, pelos Estados Unidos e pela União Européia. Para manter a dianteira nesse mercado, o Brasil deve investir em pesquisas com o objetivo de melhorar o aproveitamento dos resíduos produzidos pelo setor sucroalcooleiro. É necessário também recuperar o terreno que vem perdendo na corrida tecnológica com os Estados Unidos para a produção do chamado etanol de celulose.
Avaliação geral do segmento
1 - Características do marco regulatório
• Até 1989, quando da extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool, era forte a intervenção do governo. Duas décadas depois, o segmento sofre intervenção mínima. Hoje, o único controle que continua nas mãos do governo é a fixação do percentual de mistura do álcool na gasolina.
2 - Questões legais
• A não intervenção do governo no segmento agrada ao capital privado e estimula novos investimentos.
• A legislação ainda não permite o desenvolvimento de um mercado futuro do álcool, que poderia aumentar a liquidez do segmento.
3 - Questões tributárias
• As diferenças nas alíquotas de cobrança do ICMS permanecem, fazendo com que existam 27 países dentro do Brasil. Para piorar, em São Paulo, o governo José Serra acena com uma possível revisão - para cima - da alíquota.
4 - Questões institucionais
• Houve avanços, como o reconhecimento, pela comunidade científica internacional, do etanol de biomassa - e, principalmente, do etanol da cana-de-açúcar - como um substituto viável do petróleo e instrumento para mitigar os efeitos do aquecimento global. Outra vantagem do álcool brasileiro é não competir com a produção de alimentos.
• As denúncias de trabalho escravo, o trabalho infantil e o uso de recursos naturais como a água sempre podem ser utilizados como barreiras não-tarifárias para impedir a exportação do etanol brasileiro para países desenvolvidos. Mas as discussões de variáveis e parâmetros de medição para credenciamento e certificação de sustentabilidade do etanol vêm avançando.
5 - Investimentos
• Nos últimos anos foram realizados muitos investimentos para ampliar a capacidade produtiva nacional. No entanto, com a crise de liquidez nos mercados financeiros internacionais, as empresas do segmento estão tendo dificuldades para rolar esses financiamentos.
• A participação de estrangeiros no setor sucroalcooleiro já ultrapassou a barreira dos 10% da cana-de-açúcar moída. Em julho de 2008 chegou a 11,4%, enquanto a previsão para 2010 é atingir 15%.
• Para os próximos cinco anos estão programados aportes de 2,5 bilhões de dólares por ano na construção de novas usinas ou ampliação das já existentes.
Desafios
• A escassez de etanol nos Estados Unidos pela falta de milho pode servir de forte impulso às exportações do Brasil. Para isso, o país precisa continuar investindo na ampliação da capacidade instalada, mesmo num cenário de menor liquidez e maior dificuldade para obter crédito. Segundo os analistas, a demanda não vai parar de crescer, o que pode provocar um descompasso em relação à oferta, que terá como conseqüência o aumento de preços. A parte positiva é que um eventual aumento de preços tende a atrair mais investidores para o segmento.
• É imprescindível desenvolver a infra-estrutura de transporte do álcool, hoje muito dependente de rodovias. Sujeito a preços mais elevados por causa dos aumentos de diesel e óleo lubrificante, o produto acaba competindo por caminhões com os grãos. A saída está nos investimentos em meios de transporte mais eficientes, como ferrovias e alcooldutos.