Revista EXAME -
Passados dez anos da privatização do sistema Telebrás, a cara do setor de telecomunicações mudou completamente. Não há mais filas para a compra de uma linha telefônica, o usuário tem o poder de escolher sua operadora e a telefonia móvel deixou de ser um luxo para virar um serviço essencial, inclusive para a transmissão de dados. E, para as empresas, competir no mercado de telefonia tornou-se uma tarefa muito mais difícil. As operadoras ampliaram suas bases de cobertura e vêm adotando estratégias agressivas de redução das tarifas, num momento em que a regra da portabilidade - a possibilidade de manter o número de telefone ao trocar de operadora - está em fase de ser plenamente implantada em todo o país. As companhias estão agora mais sujeitas à avaliação dos clientes, o que exige uma estratégia comercial eficiente para manter a fidelidade dos atuais usuários e atrair assinantes da concorrência.
Além do aumento da competição, as operadoras precisam enfrentar a crise financeira global, que amplia os desafios. O crédito no mundo tornou-se mais escasso e caro, enquanto a desvalorização cambial ampliou o custo para a aquisição de equipamentos. No entanto, parar de investir seria comprometer todos os recursos aplicados até agora. As empresas de telefonia móvel que compraram licenças para explorar as freqüências de terceira geração (3G), pelas quais pagaram ágios superiores a 200% dos preços mínimos, assumiram o compromisso de estender a cobertura de seus serviços a áreas com baixa densidade populacional, conforme o cronograma determinado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). E não têm liberdade para suspender esses investimentos, mesmo que a crise se acentue.
A seu favor, as empresas do setor têm uma forte geração de caixa e dívida controlada e pouco atrelada à variação do dólar, o que permite certa resistência à turbulência financeira. Além disso, as receitas das operadoras dependem do mercado interno, e não do global, no qual as perspectivas são mais negativas. De modo geral, as companhias estão bem protegidas contra a depreciação do real. Por isso, têm conseguido captar recursos para complementar sua estratégia de investimento, ainda que a custos mais altos.
A aprovação do Plano Geral de Outorgas, que deve ser concluída no final de 2008, abre mais um capítulo neste novo momento do setor. O PGO permite a aquisição de uma operadora de telefonia fixa por outra que atue na mesma região - abrindo espaço para a concretização da compra da Brasil Telecom pela Oi. O impacto da futura "supertele", no entanto, é motivo de polêmica. Se por um lado a operação reduz a concorrência e reforça o controle de preço das tarifas pelas operadoras, por outro a redução de custo operacional da sinergia resultante da fusão pode ser repassada ao consumidor.
Para enfrentar a competição mais acirrada, as empresas têm apostado na venda combinada de serviços - com telefonia, internet rápida e TV por assinatura no mesmo pacote -, o que pode ajudar a atenuar os efeitos da crise. Tal estratégia garante às teles sinergia operacional, dá aos consumidores vantagens financeiras e é uma maneira de levar à casa do cliente serviços de maior valor agregado. A permissão para que as empresas de telefonia fixa comercializem transmissão de TV a cabo, prevista no Projeto de Lei no 29/2007, está para ser votada e pode reforçar essa estratégia. A competição é alimentada pela percepção de que, mesmo com o avanço ocorrido nos últimos dez anos, há muito espaço ainda para crescer em um mercado com demanda reprimida por serviços de telecomunicações, especialmente de transmissão de dados.