É bonito, não atrasa e ainda dá lucro

Em Copenhague, o melhor aeroporto privatizado do mundo, os funcionários cumprem metas, os usuários recebem informações operacionais pelo celular e, o mais importante, 95% dos vôos saem no horário
Arne V. Petersen
O aeroporto de Copenhague: obras de arte espalhadas pelo saguão e lojas da Versace e da Porsche
 
Por Maurício Oliveira  | 23.12.2008

Revista EXAME - 

No começo da década de 90, o aeroporto de Copenhague, na Dinamarca, estava mais perto de Congonhas do que do Primeiro Mundo. A exemplo do que ocorre hoje com o problemático terminal da capital paulistana, o serviço escandinavo se encontrava à beira de um apagão aéreo, com atrasos freqüentes e falta de verbas para reformas de manutenção e ampliação. A confusão chegou a tal ponto que o Parlamento dinamarquês resolveu intervir na história, determinando em 1994 a privatização do negócio. Desde então, as coisas por lá mudaram de forma substancial. Hoje, ele está na lista dos mais eficientes do mundo, registrando um índice de pontualidade de 95% nos vôos (em Congonhas, a taxa é de 43%). Além disso, o aeroporto de Copenhague passou a apresentar resultados financeiros muito melhores. As receitas quase quintuplicaram, chegando à casa de 570 milhões de dólares no ano passado. No mesmo período, o lucro sextuplicou e se encontra hoje perto da marca de 180 milhões de dólares por ano. Os resultados obtidos com a mudança transformaram o aeroporto num modelo de como privatizar um serviço desse tipo. O exemplo dinamarquês é especialmente valioso para o Brasil, que se prepara para entregar a empresas privadas em 2009 os aeroportos do Galeão, no Rio de Janeiro, e o de Viracopos, em Campinas.

A mudança de gestão em Copenhague foi realizada de forma gradual. Num primeiro momento, a participação do governo na operação caiu para 75%. Hoje, ela está na casa dos 40% e a expectativa é que essa taxa se reduza ainda mais nos próximos anos. Quem controla atualmente o aeroporto é a empresa Copenhagen Airports. "Temos uma grande importância para a indústria e o comércio da Dinamarca", afirma Brian Petersen, que fez carreira na Procter&Gamble antes de assumir, em 2007, a presidência da Copenhagen Aiports. As palavras do executivo não são exageradas. O aeroporto é hoje o maior empregador do país, reunindo um exército de 22 000 pessoas, entre as vagas de trabalho diretas e indiretas. Localizado na ilha de Amager, a 12 quilômetros do centro de Copenhague, o terminal não é apenas o principal da Dinamarca mas também de toda a Escandinávia, região que inclui a Suécia e a Noruega.

Mudança de patamar
 

Desde a privatização, tudo o que envolve o aeroporto de Copenhague é devidamente regido por metas e estatísticas, como determinam os princípios da gestão moderna. Quando cumprem as metas estabelecidas pela direção, os funcionários ganham em troca ações da companhia. Um dos grandes objetivos no momento é aumentar o movimento dos atuais 21,4 milhões de passageiros por ano para 30 milhões até 2015 - e, ao mesmo tempo, ser reconhecido como o melhor do mundo. Na última edição do ranking mundial do setor, elaborado pela consultoria inglesa Skytrax, o aeroporto de Copenhague aparece na 7a posição. É o único terminal privatizado que aparece entre os primeiros colocados. Para elaborar a pesquisa, a Skytrax realiza entrevistas com usuários e analisa a estrutura de cada aeroporto, avaliando itens como segurança e agilidade dos funcionários.

Os investimentos feitos desde a privatização demonstram que o objetivo de melhorar o serviço tem sido perseguido com obstinação. Em 1998, foi inaugurado o Terminal 3, com 44 000 metros quadrados, o que não apenas aumentou a capacidade do aeroporto como possibilitou a oferta de um serviço rápido e eficiente de trem até o centro de Copenhague. Entre as 50 lojas de sua requintada área de compras estão nomes célebres como Gucci, Hermès, Hugo Boss, Ralph Lauren, Montblanc, Porsche e Versace. Desde 2005, os passageiros podem encontrar todas as informações de que necessitam em um único centro de atendimento, independente da companhia aérea que utilizarão. Eventuais mudanças de horário nos vôos são informadas em tempo real pelo site do aeroporto e o usuário tem a opção de se cadastrar para receber informações no celular. Uma área para lazer de crianças acaba de ser inaugurada no Terminal 2 - e os pais podem fazer sauna enquanto esperam. Em 2008, o aeroporto está reinvestindo praticamente todo o lucro na melhoria dos serviços de check-in e na ampliação da capacidade de armazenamento de bagagens. Outro projeto importante consiste em reduzir 21% as emissões de gases poluentes até 2012.

Modelo de eficiência


Programas de privatização como o realizado na Dinamarca vêm sendo adotados desde os anos 80. A Inglaterra foi pioneira nessa política, quando a British Airports Authority (BAA) passou às mãos da iniciativa privada, em 1987. Na Argentina, o grupo Aeropuertos Argentina controla desde o final dos anos 90 mais da metade dos aeroportos do país. Essa onda começou a receber críticas quando algumas empresas aumentaram as tarifas para os passageiros e as companhias aéreas. Mesmo assim, o avanço da privatização no setor continua, até mesmo por falta de alternativas. Com o aumento do tráfego aéreo mundial, poucos governos no mundo têm hoje recursos para realizar investimentos para manter o serviço dos terminais num padrão eficiente. Nos Estados Unidos, está em discussão agora a venda do aeroporto Midway, de Chicago, que atende 18 milhões de passageiros por ano. Se a idéia de privatização do Galeão e de Viracopos for levada adiante, o Brasil deve engrossar a fileira de países que adotaram o modelo de Copenhague.

 
 
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