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Apesar de todos os esforços observados nos últimos meses para resgatar instituições financeiras nos EUA, Joseph Stiglitz, ex-economista-chefe do Banco Mundial, acredita que plano do governo ainda não está funcionando e lucros bancários são, na verdade, truques fiscais - ao invés de sinais concretos de recuperação.
Qual a sua opinião sobre os recentes comentários de Obama, de que já existem alguns sinais de recuperação na economia americana?
- Espero que ele esteja certo, mas estou menos otimista. Por natureza, os governos devem passar uma mensagem de otimismo à população. E eles acreditam que se você falar bem da economia, as pessoas vão recuperar a confiança e a partir daí haverá a retomada do crescimento. Mas os problemas são profundos e não vão desaparecer. A confiança pode melhorar as coisas, mas os problemas estão aí e quando as pessoas perceberem os sinais das falsas esperanças, o tiro pode sair pela culatra. Um exemplo disso é que, há algumas semanas, o governo resolveu permitir que os bancos não precisem mais fazer uma marcação a mercado de seus papéis. Logo, a decisão do governo não permitirá que as pessoas saibam qual será o verdadeiro valor do balanço dos bancos. Sem a marcação a mercado, os bancos podem registrar lucros maiores - e num momento como esse, lucros maiores podem aumentar a confiança das pessoas. Mas a realidade é que isso não passa de um truque contábil. E foram justamente os truques contábeis que nos deixaram na situação em que nos encontramos.
O senhor tem sido um crítico feroz do Plano Geithner de resgate aos bancos americanos, em que grande parte dos recursos usados virá do governo e uma parcela menor de investidores privados. Mas diante à oposição da opinião pública americana à nacionalização dos bancos, qual seria a alternativa do governo Obama?
- Essa questão precisa ser formatada com cuidado. De fato, quase toda semana o governo socorre e passa a controlar algum novo banco. Nós (o governo) resgatamos os bancos para depois vendê-los. As empresas também entram em concordata e algumas acabam sendo revendidas. Isso é do sistema capitalista. Mas não é normal no sistema capitalista que o governo assuma as perdas dos bancos, enquanto eles acabam ficando com os lucros. É preciso que o governo explique que não se trata realmente de uma nacionalização do sistema bancário americano, mas de uma reorganização financeira, que deve ser facilitada pelo governo, porque hoje ele se vê na posição de alto risco de ter assegurado os depósitos desses bancos em dificuldade.
Logo, em sua opinião, o governo Obama por não conseguir transmitir uma mensagem clara e honesta aos americanos sobre o que precisa ser feito.
- Exatamente. E é claro que os acionistas dos bancos não querem que isso aconteça, porque eles verão o valor de seus papéis cair. E muitos altos executivos desses bancos em dificuldade são também seus acionistas. Isso é compreensível, mas acontece que nós nos esquecemos de um princípio básico. Existe uma grande diferença entre salvar os bancos e entre salvar os banqueiros e seus acionistas. E todo esse dinheiro dos contribuintes americanos está sendo gasto para salvar acionistas e banqueiros. E infelizmente, apesar de tudo isso, ainda assim o plano não está funcionando bem.
O FMI está se tornando o banco central global, oferecendo liquidez aos países em dificuldade?
- Não, mas certamente a ação do G20 vai no sentido de garantir mais financiamento e maior acesso aos recursos para os países em dificuldade. Mas a verdade é que muitos países emergentes estão bastante relutantes em aceitar os empréstimos do Fundo. E muitos países com grandes reservas também resistem a canalizar seus recursos para o Fundo, que tem uma longa história de tentar empurrar políticas pro-cíclicas aos países para quem ele dá dinheiro. Historicamente, isso tem se provado contra-producente. Um dos maiores erros do Fundo foi pressionar os países a promover reformas de desregulamentação de seus mercados, o que está na raiz desta crise, de globalização dos mercados financeiros. Tais reformas facilitaram o contágio da doença de um país para o outro. O que vemos hoje é o aumento de atividade econômica bilateral. A China, por exemplo, está emprestando para vários países. Logo, os países que conseguem dinheiro de outras fontes, preferem fazê-lo a tomar um empréstimo do FMI. E mesmo quando há alguns meses o FMI anunciou uma série de facilidades para novos empréstimos, muitos países preferiram recorrer ao Federal Reserve.
O senhor acredita que diante da pressão dos países emergentes no G20, o FMI terá que desistir das antigas condições impostas para emprestar?
- Ele tem dito que sim. Creio que eles vão desistir de várias condições estruturais para emprestar, mas ainda não dá para saber se eles vão manter as mesma condições macro-econômicas do passado.
Que países hoje se encontram sob maior pressão econômica e, portanto, precisando de uma injeção de liquidez?
- A situação muda constantemente, logo é muito difícil apontar exatamente os países com maiores problemas. Há poucos meses, a Ásia se encontrava numa posição confortável, mas agora, em função de um profundo declínio em suas exportações - que em parte deve ser atribuída à falta de crédito comercial - muitos países se vêem numa situação mais frágil. Felizmente, parte deles tem grandes reservas. A queda nos preços das commodities afetará negativamente muitos países africanos. E até recentemente, os brasileiros estavam muito confiantes de que o seu país seria muito pouco afetado pela crise. Estive aí durante o último outono e os brasileiros diziam que os reguladores de seu país fizeram um trabalho muito melhor do que os americanos, o que é verdade. E é verdade que o Brasil não havia se engajado nas práticas negativas cometidas pelos EUA. Mas vivemos numa economia globalmente integrada e o resultado é que o Brasil teve um crescimento negativo no último trimestre de 2008.
E a China? Que nível de crescimento o país pode alcançar em meio à crise e o que isso significa para o resto do mundo?
- A China é o país que tem reagido com maior firmeza à crise, uma vez que o pacote de estímulo produzido pelo governo chinês é o maior do mundo em relação do PIB de cada país. Por outro lado, a China tem tido problemas dramáticos em função do desemprego de cerca de 20 milhões de trabalhadores migrantes. Isso é uma causa do profundo e repentino declínio no nível de exportações chinesas. Existe um consenso geral de que haverá uma queda significativa no crescimento chinês, mas que ainda assim a China terá um crescimento significativo se comparado ao padrão global. A mais recente previsão do Banco Mundial a respeito diz que o crescimento chinês vai cair de 11% para 6,5%. Mas os chineses dizem que o crescimento deve se aproximar da casa de 8%. E os analistas de instituições privadas dizem que a China vai crescer cerca de 5%. No contexto de desaceleração global, todos esses são números impressionantes e creio que eles terão um crescimento significativo, em função da enorme intervenção governamental.
Segundo o NYT, no último trimestre, a China diminuiu o ritmo de aquisições de títulos do governo americano. Quão preocupado está o governo chinês com uma desvalorização abrupta do dólar?
- Não é surpresa nenhuma para ninguém, especialmente para os que investem em ativos americanos, que existe uma preocupação com uma potencial inflação nos EUA, em função do aumento expressivo da dívida nacional americana e do aumento das emissões de moeda pelo Fed. E existe também pouca confiança no sentido de que o Fed será capaz de retirar a liquidez do mercado americano quando isso se fizer necessário. Logo, toda essa ansiedade é compreensível. Muitos dos investidores hoje preocupados com a inflação compraram os Tips - os papéis do Tesouro protegidos contra a inflação. Mas acontece que hoje não existem títulos indexados pela inflação em volume suficiente para que, por exemplo, a China consiga se proteger. E acontece que não existe nenhuma moeda cujo valor seja estável. Todas as moedas têm exibido volatilidade: o dólar, o euro, o iene. E é por isso que a China tem apoiado uma expansão do sistema de reserva global.
A maioria dos analistas agora prevê que o Brasil terá um crescimento negativo em 2009, enquanto o governo prevê um crescimento modesto. Quem está com a razão?
- Não creio que eu tenha, a essa altura, condições de opinar. É preciso reconhecer que assim como nos EUA, também no Brasil, o governo precisa passar uma mensagem de otimismo à população. Mas os governantes também precisam manter o senso de realidade, a fim de preservarem sua credibilidade junto à população. Foi a falta de senso de realidade que vitimou a popularidade de Bush em relação à guerra do Iraque. Ele insistia em dizer que a vitória americana era iminente, enquanto as coisas só pioravam e ele também fez comentários do gênero sobre a situação econômica do país. O resultado foi a erosão da confiança no governo Bush como um todo. Existe um equilíbrio muito delicado entre realismo e otimismo.
Para estimular a economia brasileira a enfrentar a crise, o governo Lula tem promovido corte de impostos na venda de automóveis e para a construção de moradias, além de conceder linhas especiais de crédito a empresas em dificuldade. Entretanto, para compensar uma queda na arrecadação de impostos, o governo terá que reduzir sua meta de superávit fiscal em 2009. Em função do frágil equilíbrio fiscal brasileiro e da recente história de hiperinflação do país, quão arriscada é a política expansionista hoje praticada pelo governo?
- Creio que estamos vivendo uma situação incomum, em que eu aconselharia à maioria dos países que, se eles tiverem capacidade de financiamento, que eles adotem políticas contra-cíclicas, aumentando os seus gastos. Parte dos problemas é que o sistema de contabilidade de nossos governos apresenta falhas graves. Nós costumamos olhar para as obrigações, mas não olhamos para os ativos. E se você gasta dinheiro para criar um ativo, o seu balancete será tão bom quanto antes. Por isso, apóio os gastos, desde que eles criem ativos. Logo, ao final é possível dizer: sim, contraímos dívidas, mas o resultado é criamos algo valioso.
Que lições podemos tirar dessa crise? O senhor tem insistido que o sistema financeiro internacional precisa ser reformado com urgência pelo menos em dois aspectos: o sistema de pagamentos dos executivos do mercado financeiro e também com o aumento da regulação, impedindo que as chamadas firmas grandes demais para quebrar façam operações de alta alavancagem, como na crise do subprime. Hoje o senhor está mais pessimista ou otimista em relação a esses dois pontos?
- Estou muito mais pessimista. Creio que o G20 abordou a questão, mas não resolveu os problemas. Até agora, a posição americana é a de que precisamos de supervisão, e isso é necessário, mas não é o bastante. Nós não queremos apenas ver que as coisas estão se deteriorando com os bancos, precisamos interromper o processo antes que seja tarde demais. E isso significa mais regulação. E é claro que os bancos não tem a capacidade ou vontade de julgar o tipo de risco que pode vir a prejudicar outros investidores. E eles tem assumido riscos inadmissíveis de forma repetida. Essa não é a primeira crise: precisamos nos lembrar de que os bancos americanos já foram resgatados na Coréia do Sul, Argentina, Tailândia, Indonésia e Rússia. E o fato é que nós continuamos a resgatá-los. Se essa fosse a primeira vez, você poderia dizer: bem, isso foi um acidente. Mas acontece que esse é um padrão, repetitivo, de mau comportamento. O sistema financeiro continua exercendo uma enorme capacidade de influência política para retornar o mundo ao estado ex-ante da crise, como era em 2007, com alguma mudança cosmética. Eles dizem que teremos uma supervisão geral, mas eles não querem uma regulação geral. E se temos bancos que são grandes demais para quebrar, temos que nos certificar de que eles não vão cometer os mesmos erros do passado, que hoje colocam em risco o futuro de toda a economia americana. É difícil até mesmo imaginar o volume de dinheiro gasto para resgatar os bancos: se aplicássemos os mesmos recursos no sistema de seguridade social americano, ele poderia garantir as aposentadorias dos americanos por 75 anos! E ao invés disso, injetamos todo esse dinheiro nos bancos. Acontece que os americanos são cada vez mais resistentes à idéia de dar dinheiro aos bancos. A revolta dos americanos cresceu ainda mais quando os bancos, logo depois de serem resgatados, concederam bilhões de dólares em pagamento de bônus aos seus alto-executivos, cujo principal feito foi gerar perdas recordes. E eles também pagaram dividendos para acionistas de empresas que não tinham nenhum dinheiro. Logo, existe muita raiva contra os bancos. As regras do jogo tem que mudar.
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